O HOMEM AO LADO DO CAIXÃO

A chuva caía fina sobre o cemitério de Westchester, escorrendo pelas lápides escuras e pelos guarda-chuvas pretos que cercavam o mausoléu.

Naomi Nsimba não ouvia quase nada.

Nem o padre.

Nem as condolências sussurradas.

Nem o som baixo dos carros deixando a alameda.

Ela só conseguia olhar para o caixão do pai.

A madeira era escura, polida, cara demais para conter um homem que passara metade da vida dizendo que dinheiro só servia quando melhorava a vida de alguém.

Étienne Nsimba odiaria aquilo.

O mármore.

As flores importadas.

Os executivos de terno escuro fingindo tristeza enquanto calculavam o que aconteceria com a empresa na segunda-feira.

Naomi apertou os dedos em torno da rosa branca que segurava.

O pai tinha morrido quatro dias antes.

Quatro dias desde que atendera uma ligação às duas da manhã e ouvira uma enfermeira dizer que ele sofrera uma parada cardíaca.

Quatro dias desde que entrara no hospital e percebera que a mão dele, sempre quente e firme, estava fria.

Quatro dias desde que descobrira que ninguém preparava uma filha para ver o homem que parecia indestrutível virar silêncio.

— Naomi…

Ela não olhou.

Reconheceria aquela voz mesmo se estivesse no fim do mundo.

Marek Zielinski estava à sua esquerda, distante o bastante para não tocá-la, perto o bastante para fazê-la querer ir embora.

Ele usava um sobretudo preto sobre o terno escuro. A chuva tinha deixado o cabelo ruivo mais fechado, quase castanho, mas algumas mechas acobreadas ainda apareciam perto da testa. Os olhos verde-acinzentados estavam presos no caixão.

Ele parecia cansado.

Aquilo a irritou.

Marek não tinha o direito de parecer cansado.

Não era filho de Étienne.

Não era a pessoa que ficara sentada ao lado de uma cama de hospital esperando o peito do pai voltar a subir.

Não era quem carregava o sobrenome Nsimba.

Era apenas o CEO bilionário que possuía metade da empresa criada pelo pai dela.

E, para Naomi, isso já era poder demais para um homem só.

— Não fala comigo agora…

Marek virou o rosto devagar.

— Eu só queria saber se você precisa de alguma coisa…

Naomi soltou uma risada baixa, sem humor.

— Você realmente escolheu o velório do meu pai para fingir que se importa?!

A mandíbula dele travou.

— Eu me importava com Étienne…

— Não usa o primeiro nome dele como se vocês fossem amigos!

Algumas pessoas próximas se calaram.

A tia de Naomi, Celeste, tocou de leve o braço dela.

— Meu amor…

Naomi se afastou do toque.

Marek baixou a voz.

— Não vou discutir com você aqui…

— Que conveniente!

— Naomi…

— Conveniente demais! Meu pai morre e, antes mesmo de colocarem ele debaixo da terra, você aparece com essa cara de homem preocupado, como se ninguém soubesse que vai assumir tudo na segunda-feira!

Os olhos de Marek ficaram mais frios.

— Eu não vou assumir nada sozinho!

— Claro que vai! Você já fazia isso há anos!

— Eu administrava a empresa porque era meu trabalho!

— E meu pai confiou demais em você!

Marek olhou para o caixão.

Por um instante, Naomi pensou que ele fosse responder. Que fosse dizer alguma coisa dura. Que lembrasse a ela que Étienne o escolhera como sócio quando ela ainda estava na faculdade, tentando descobrir o que queria fazer da vida.

Mas ele não disse nada.

Aquilo foi pior.

Ela voltou a olhar para o pai.

O padre concluiu a oração. Algumas pessoas fizeram o sinal da cruz. Outras baixaram a cabeça. O som das primeiras pás de terra batendo sobre a madeira atravessou Naomi como uma violência.

Ela deu um passo para trás.

Depois outro.

O ar sumiu.

Não era a chuva.

Não era o frio.

Era a certeza brutal de que Étienne Nsimba não voltaria para casa naquela noite.

Nunca mais.

Marek segurou o cotovelo dela antes que ela caísse.

O toque queimou.

Naomi puxou o braço.

— Não encosta em mim!

Ele soltou imediatamente.

— Desculpa…

— Você não sabe fazer isso, sabe?!

Marek franziu a testa.

— Fazer o quê?!

— Pedir desculpas sem parecer que está esperando alguma coisa em troca!

A dor passou pelo rosto dele tão rápido que ela quase se convenceu de que tinha imaginado.

Quase.

— Nem tudo entre nós precisa ser uma guerra, Naomi…

Ela encarou os olhos dele.

— Para mim, começou quando você fez meu pai desconfiar da própria empresa!

Marek respirou fundo.

— Seu pai não desconfiava da empresa…

— Ele desconfiava de você!

— Você não sabe do que está falando!

— Então me explica!

O silêncio ficou entre os dois.

A chuva engrossou.

Os convidados começavam a se dispersar. Os executivos da Nsimba Transit Group falavam em pequenos grupos, protegidos pelos guarda-chuvas. Todos os olhares pareciam voltar para os dois.

Naomi conhecia aquela expressão.

Eles estavam esperando.

Esperando para ver quem cairia primeiro.

— Não aqui… — Marek disse.

— Por quê?! Porque as pessoas podem ouvir?!

— Porque você acabou de enterrar seu pai!

— E você parece muito preocupado com o que vão pensar!

— Eu estou preocupado com você!

Naomi aproximou o rosto do dele.

— Não está!

Marek não recuou.

— Você não pode decidir o que eu sinto!

— Posso decidir que não quero ouvir!

— Isso você já decidiu há muito tempo…

Ela piscou, surpresa pelo tom.

Marek passou a mão pelo rosto molhado de chuva.

— Eu sei que você me odeia! Sei que acha que eu roubei alguma coisa dele! Mas Étienne era meu amigo antes de ser meu sócio…

— Meu pai não tinha amigos na empresa!

— Tinha um!

Naomi sentiu o golpe.

Marek pareceu perceber que tinha ido longe demais. A boca dele se fechou. Os olhos voltaram para o caixão.

— Você acha que era o único homem que ele respeitava?! — ela perguntou.

— Não…

— Então por que ele morreu brigado com você?!

Ele ficou imóvel.

A pergunta saiu baixa, mas atravessou tudo.

O vento.

A chuva.

A música distante de um violino perto da entrada do cemitério.

Marek demorou para responder.

— Porque eu tomei uma decisão que ele não aceitou…

— Que decisão?!

— Não importa hoje…

— Para você, talvez não importe! Para mim importa!

— Naomi…

— Ele me ligou três semanas atrás! Estava nervoso! Disse que você queria fazer alguma coisa com a empresa e que ele não confiava mais em você!

Marek a encarou.

— Ele disse isso?!

— Disse!

— E foi só isso que ele disse?!

Naomi apertou a rosa com força.

— O suficiente!

Marek deu um passo mais perto.

— Não, não foi suficiente! Porque Étienne dizia muitas coisas quando estava assustado! Ele não gostava de admitir que estava perdendo o controle de alguma situação!

— Você está chamando meu pai de fraco?!

— Eu estou dizendo que ele era humano!

— Ele era melhor do que você!

A resposta saiu antes que ela pudesse impedir.

Marek ficou em silêncio.

Naomi odiou ver a forma como aquilo acertou nele.

Odeio você, ela pensou.

Odeio que meu pai confiava em você.

Odeio que você ainda parece sofrer.

Odeio que uma parte de mim queira acreditar que você não fez nada.

Uma mulher de cabelo grisalho se aproximou. Naomi reconheceu Helena Corbett, diretora jurídica da empresa. Ela tinha trabalhado com o pai por quase vinte anos.

Helena segurava uma pasta preta contra o peito.

— Senhora Nsimba…

Naomi virou o rosto.

— Hoje não, Helena…

— Eu sei! Sinto muito mesmo! Mas o senhor Duvall pediu que eu encontrasse vocês dois antes de sair!

— O advogado do meu pai pode esperar até amanhã!

Helena olhou para Marek.

— Ele disse que não era possível…

Marek estreitou os olhos.

— Onde está Duvall?!

— No carro! Ele pediu discrição!

Naomi soltou uma risada amarga.

— Claro que pediu! Meu pai mal foi enterrado e já tem uma reunião marcada!

— Não é uma reunião! — Helena respondeu. — É sobre o testamento!

A palavra fez Naomi congelar.

Marek olhou para Helena.

— O testamento seria lido na próxima semana!

— Houve uma alteração feita dois dias antes da morte do senhor Nsimba…

Naomi sentiu o estômago revirar.

— Dois dias antes?!

Helena assentiu.

— O senhor Duvall pediu que vocês fossem até a Mansão Nsimba agora!

Naomi olhou para Marek.

Ele parecia tão surpreso quanto ela.

Ou fingia muito bem.

— Eu não vou a lugar nenhum com ele! — Naomi disse.

Helena baixou os olhos.

— Senhora Nsimba, há uma condição! O senhor Duvall disse que a leitura só pode acontecer com os dois presentes…

— Por quê?!

A advogada apertou os lábios.

— Porque o novo testamento envolve o senhor Zielinski diretamente…

Naomi virou-se para Marek.

— Você sabia disso?!

— Não!

— Mentira!

— Eu não sabia, Naomi!

— Meu pai muda o testamento dois dias antes de morrer e você não sabe?!

Marek perdeu a paciência.

— Você acha que eu controlo tudo, não é?! Acha que acordo de manhã decidindo como destruir sua vida?! Pois talvez seja uma surpresa para você, mas nem tudo gira em torno do que você imagina!

Naomi ergueu o queixo.

— Não grita comigo no velório do meu pai!

— Então para de me acusar como se eu tivesse matado ele!

O mundo parou.

Marek ficou pálido no instante em que percebeu o que tinha dito.

Naomi sentiu os olhos queimarem.

— Você é nojento…

— Naomi, eu não quis dizer isso…

— Você falou!

— Eu estava irritado!

— Você estava irritado?! Meu pai está morto, Marek!

A voz dela saiu quebrada no final.

Ele baixou a cabeça.

A chuva escorreu pela ponta do nariz dele. Por alguns segundos, Marek Zielinski não pareceu o homem que entrava em uma sala e fazia todos os outros se calarem.

Não pareceu o bilionário cujo sobrenome aparecia em revistas de negócios.

Pareceu apenas um homem que tinha dito a coisa errada para a pessoa errada.

— Desculpa… — ele murmurou.

Naomi não respondeu.

Celeste se aproximou e envolveu os ombros da sobrinha com um braço.

— Vamos embora daqui…

Mas Helena ainda estava parada diante deles.

— Senhorita Nsimba… senhor Zielinski… o senhor Duvall está esperando!

Naomi limpou o rosto com raiva.

— Eu vou ouvir o que meu pai deixou! Mas não por você!

Marek sustentou o olhar dela.

— Eu não pedi que você fosse por mim…

— Ótimo! Então não fala comigo durante o caminho!

— Eu não pretendia…

— E não olha para mim!

Ele soltou o ar pelo nariz.

— Isso talvez seja mais difícil…

Naomi virou o rosto.

— O quê?!

Marek pareceu perceber o que tinha escapado. A expressão dele fechou.

— Nada…

— Você sempre fala “nada” quando está escondendo alguma coisa!

— E você sempre transforma qualquer frase em uma sentença!

— Porque você sempre parece culpado!

Helena ergueu a mão entre os dois.

— Por favor… não aqui!

Naomi olhou uma última vez para o caixão.

A terra já cobria parte da madeira.

Seu pai estava indo embora.

E ela nem sabia o que ele tinha deixado para trás.

O carro de Naomi seguiu atrás do de Marek pela estrada molhada.

Ela poderia ter ido com a tia. Poderia ter pedido para Helena levá-la. Poderia ter chamado qualquer pessoa.

Mas não queria companhia.

Queria silêncio.

A Mansão Nsimba ficava no alto de uma colina cercada por árvores antigas. Naomi tinha passado muitos fins de semana ali quando criança, correndo pelos corredores, escondendo-se na biblioteca e ouvindo o pai atender ligações no escritório.

Depois crescera.

Depois começara a perceber quantas ligações ele atendia.

Quantos jantares cancelava.

Quantos aniversários esquecia.

Ela parara de ir.

Agora voltava para enterrar o homem que amava e cobrar respostas de quem talvez tivesse ajudado a destruí-lo.

Quando o carro passou pelos portões de ferro, Naomi sentiu o peito apertar.

Marek já estava parado perto da entrada.

Ele não esperou por ela.

Entrou na casa primeiro.

Aquilo a irritou mais do que deveria.

Naomi seguiu pelo hall. O cheiro da mansão era o mesmo: madeira antiga, café, flores recém-cortadas e o perfume discreto que o pai usava.

Duvall estava sentado na biblioteca.

Era um homem baixo, grisalho, com óculos redondos e uma expressão cansada. Ao lado dele, sobre a mesa de mogno, havia uma caixa de madeira escura.

Naomi parou diante da caixa.

— O que é isso?!

Duvall se levantou.

— Uma instrução do seu pai…

— Ele deixou isso para mim?!

— Para vocês dois!

Naomi olhou para Marek.

— Que surpresa…

Marek cruzou os braços.

— Abre logo, Duvall!

O advogado tirou um envelope de dentro da caixa. Havia o nome de Naomi escrito à mão. Logo abaixo, outro nome.

Marek Zielinski.

Naomi sentiu o coração acelerar.

Duvall abriu o documento.

— “À minha filha, Naomi, e ao homem que eu tratei como família quando não deveria ter esquecido que famílias também podem se destruir…”!

Marek endureceu.

Naomi virou o rosto para ele.

Duvall continuou:

— “Deixo minha participação de cinquenta por cento da Nsimba Transit Group à minha filha, Naomi. A outra metade permanece com Marek Zielinski. Nenhum dos dois poderá vender, transferir ou comprometer suas ações sem consentimento do outro. Durante cento e oitenta dias, Naomi e Marek deverão residir nesta casa e administrar juntos o patrimônio que construí…”!

Naomi olhou para o advogado.

— Isso é uma piada?!

— Não é! — Duvall respondeu.

— Meu pai não faria isso!

— Fez! — Marek disse.

Ela se virou para ele.

— Você sabia!

— Eu acabei de ouvir a mesma coisa que você!

Duvall levantou outra página.

— “Durante a sucessão, as ações deixadas por mim concedem a Naomi poder de veto sobre venda estrutural da empresa e substituição definitiva da presidência. Caso um dos dois abandone a residência, os direitos de voto ficarão temporariamente sob administração de um fiduciário indicado pelo conselho…”!

Naomi ficou imóvel.

— Ele deixou tudo armado…

— Ele deixou vocês obrigados a conversar! — Marek respondeu.

— Ele deixou minha vida presa à sua!

Marek deu um passo na direção dela.

— Eu não queria seu pai morto!

A biblioteca ficou silenciosa.

Duvall baixou os olhos.

Lá fora, um trovão atravessou o céu.

Marek encarou Naomi como se também odiasse a própria voz.

— Mas ele está morto… — disse, baixo. — E agora nós dois vamos descobrir por que ele acreditava que não podíamos fugir um do outro…

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