A PROPOSTA
Helena Duarte saiu do fórum com uma folha amassada entre os dedos.
A chuva ainda não tinha começado, mas o céu de São Paulo já pendia baixo sobre os prédios, pesado e escuro.
Pessoas cruzavam os degraus apressadas. Advogados falavam ao telefone. Uma mulher chorava perto da porta de vidro, abraçada a uma pasta.
Helena não via ninguém.
Só via a frase impressa no alto da intimação.
Pedido de guarda provisória.
Hugo Duarte queria Caio.
Depois de quatro anos preso.
Depois de quatro anos sem ligar no aniversário do filho, sem mandar uma carta, sem perguntar se ele estava bem.
Agora queria ser pai.
— Se você apertar mais esse papel, ele rasga!
Helena ergueu os olhos.
Caio estava dois degraus acima, com a mochila pendurada em um ombro. Aos dezesseis anos, já era quase mais alto que ela.
O rosto lembrava o pai em detalhes que Helena preferia não enxergar.
O maxilar fechado.
Os olhos castanhos.
Mas Caio ainda tinha uma coisa que Hugo perdera há muito tempo: vergonha.
— Eu não vou rasgar! — Helena disse.
— Parece que vai!
— Estou escolhendo entre rasgar isso ou rasgar o advogado dele!
Caio soltou uma risada curta.
Logo olhou para a rua.
— Ele falou alguma coisa sobre mim?
— Falou o que o advogado mandou!
— Que eu preciso de um pai?
Helena subiu um degrau.
— Você precisa de paz. É diferente!
— A juíza acreditou nele?
Ela olhou para a intimação.
A juíza não tinha acreditado em Hugo. Também não tinha encerrado o caso.
Tinha pedido avaliação social, documentos, comprovantes de renda, histórico escolar.
Helena tinha tudo aquilo.
Mas Hugo tinha um advogado caro.
E dinheiro que não deveria ter.
— Ela vai analisar tudo! — Helena respondeu.
— Isso quer dizer que ela pode me mandar morar com ele?
— Não!
— Helena…
— Não!
Duas pessoas que passavam diminuíram o passo.
Helena baixou a voz.
— Você não vai morar com ele. Entendeu?
Caio assentiu devagar.
— Você está com medo!
— Estou irritada!
— Você fica irritada quando está com medo!
— E você ficou muito bom em me analisar. Isso é preocupante!
Ele não sorriu.
— Você faz isso desde que a mãe morreu!
Helena não respondeu.
— Quando alguma coisa sai do controle, você começa a organizar tudo — Caio continuou. — Conta, documento, comida, remédio… como se colocar as coisas no lugar impedisse o mundo de cair.
Um táxi buzinou na avenida.
Helena guardou a intimação na pasta azul.
— Eu vou resolver isso!
— E se não resolver?
Ela levantou o rosto.
— Então eu resolvo de outro jeito!
Caio conhecia aquela resposta.
Era a mesma que ela dava quando faltava dinheiro para o aluguel.
Quando ele ficava doente.
Quando alguém perguntava o que fariam no mês seguinte.
— Você não vai fazer nenhuma besteira, né? — ele perguntou.
— Depende do que você chama de besteira!
— Helena!
Ela segurou um sorriso.
— Eu não vou fazer nada sem pensar!
— Isso não me tranquiliza!
— Não era para tranquilizar!
O celular vibrou dentro da bolsa.
Número desconhecido.
Helena olhou a tela.
Você realmente acha que consegue me tirar meu filho?
Ela bloqueou o aparelho.
Caio viu.
— É ele?
— Não!
— Você mente mal!
— Ainda bem que não preciso mentir para ganhar de você!
Outra mensagem chegou.
Helena não abriu.
— Você vai para a casa da Dona Irene — ela disse. — E não sai de lá antes de eu buscar você!
— Eu tenho dezesseis anos!
— Exatamente. Velho demais para fazer besteira sem ninguém perceber e novo demais para achar que não precisa de proteção!
— Você não manda em mim!
O silêncio ficou entre os dois.
Caio olhou para os próprios tênis.
— Desculpa!
Helena tocou o rosto dele.
— Eu sei que você não quer ir!
— Eu não quero que você fique sozinha!
— Eu não vou ficar!
— Você sempre fala isso!
— Porque é verdade!
— Não parece!
Helena soltou o ar.
— Olha para mim!
Ele olhou.
— Ninguém vai decidir sua vida sem ouvir você. E ninguém vai arrancar você de mim como se fosse uma mala. Não hoje. Não amanhã. Nunca!
Caio piscou depressa.
— Você não pode prometer!
— Posso prometer que vou lutar até a última porta fechar. E, se fechar, a gente arromba!
Ele escondeu o rosto por um instante.
— Isso foi uma ameaça?
— Um aviso educado!
— Não pareceu educado!
— Estou praticando!
Caio quase sorriu.
Então parou.
O olhar dele passou por cima do ombro de Helena e ficou preso em algum ponto da rua.
— Quem é aquele homem?
Helena se virou.
Dante Valença estava sob a marquise de uma loja fechada.
Não segurava guarda-chuva.
Não parecia se importar com os pingos que começavam a escurecer os ombros do terno preto.
Ele tinha o mesmo ar de cinco anos antes.
Alto. Imóvel. Preciso.
O rosto sério demais.
A postura de quem nunca perguntava se podia entrar em algum lugar.
E os olhos cinzentos.
Helena lembrava bem daqueles olhos.
Cinco anos antes, ela tinha entregado ao Grupo Valença um relatório sobre fraudes em contratos públicos.
Empresas de fachada.
Pagamentos duplicados.
Assinaturas repetidas.
O nome de Augusto Ferraz aparecendo em documentos demais.
Dante era o presidente da empresa.
Helena acreditou que ele fosse querer descobrir a verdade.
Em vez disso, ele colocou advogados diante dela.
Questionou cada linha do relatório.
Fez perguntas que pareciam neutras, mas soavam como acusações.
Dias depois, seu nome apareceu em uma nota sobre violação de sigilo e investigação interna.
Os clientes sumiram.
Os contratos foram cancelados.
A conta de luz atrasou.
Ela vendeu o carro da mãe.
E Dante Valença continuou aparecendo em revistas de economia, sorrindo ao lado de números recordes.
— Quem é ele? — Caio perguntou.
— Um homem que devia ter ficado no passado!
Dante atravessou a rua.
Caio ficou mais perto dela.
— Ele parece importante!
— Ele parece caro. Não confunda as coisas!
Dante parou diante dos dois.
— Helena!
Ela cruzou os braços.
— Você está me seguindo?!
— Eu precisava falar com você!
— Então aprende a usar telefone!
— Você não atenderia!
— Uau. Cinco anos e você finalmente aprendeu alguma coisa!
Dante olhou para Caio.
Helena deu um passo à frente.
— Não olha para ele!
Os olhos cinzentos voltaram para ela.
— Seu irmão não está seguro!
Caio soltou uma risada sem humor.
— Que ótimo. Eu saio de uma audiência com meu pai e encontro outro estranho dizendo que sabe o que é melhor para mim!
— Caio…
— Não. Quem é ele?
Dante respondeu sem pressa:
— Dante Valença!
Caio olhou para Helena.
— É o cara da história?
— É!
— Aquele que acabou com seu trabalho?
Dante continuou olhando para Helena.
— Ela tem motivos para não gostar de mim!
— Não gostar? — Helena repetiu. — Você tem uma habilidade admirável para diminuir tragédias.
— Eu não vim discutir o passado!
— Que pena. Era o único assunto em que eu tinha interesse!
Dante ignorou a resposta.
— Hugo Duarte se encontrou com Augusto Ferraz há três dias!
Helena ficou imóvel.
Augusto Ferraz.
Ex-diretor financeiro do Grupo Valença.
O homem cujo nome aparecia no relatório que ela fizera.
O homem preso por lavagem de dinheiro depois que sua carreira já estava destruída.
— Augusto está em prisão domiciliar — ela respondeu!
— Está. E continua operando!
— Então chama a polícia!
— Já chamei!
— E veio fazer o quê? Pedir desculpas atrasadas?
— Vim porque Hugo não quer a guarda de Caio!
Caio olhou para a irmã.
Helena não desviou os olhos de Dante.
— Você não sabe o que meu pai quer!
— Sei que ele quer chegar até você!
— Eu não tenho nada!
Dante deu um passo à frente.
— Tem, sim!
— Você não sabe nada da minha vida!
— Sei mais do que você imagina!
Helena soltou uma risada curta.
— Essa frase deveria soar misteriosa. Vindo de você, só soa como ameaça!
Dante sustentou o olhar.
— Sua mãe deixou alguma coisa antes de morrer!
O movimento da avenida pareceu distante.
Caio olhou de um para o outro.
— Que coisa?
— Minha mãe não deixou nada! — Helena disse.
— Deixou documentos!
— Ela morreu em um acidente!
— Eu sei!
— Não, você não sabe! Você não estava naquele hospital. Não ouviu o médico chamar meu nome. Não viu o Caio esperando alguém dizer que era mentira… então não usa a minha mãe para me colocar dentro do seu carro!
Dante demorou um instante.
— Eu não estou dizendo que ela não morreu em um acidente!
Helena ficou parada.
— Então o que você está dizendo?
— Que talvez alguém tenha se esforçado para parecer um!
Caio olhou para Helena.
— Ele está falando que fizeram alguma coisa com a mãe?
— Ele está falando demais!
Dante virou o rosto para o garoto.
— Seu pai não voltou por você!
Helena avançou.
— Não fala com ele!
— Ele precisa entender o risco!
— Ele precisa de uma irmã, não de um estranho despejando horror na cabeça dele!
— Helena…
— Chega!
A chuva começou fina.
Depois engrossou depressa, batendo no asfalto e nos ombros de quem corria para se proteger.
Dante não se moveu.
— Há quarenta minutos, dois homens tentaram colocar Caio dentro de um carro na Rua das Laranjeiras!
Caio travou.
Helena apertou a alça da bolsa.
— Isso é mentira!
— Não é!
— Como você saberia?
— Porque meus homens impediram!
Ela deu uma risada amarga.
— Seus homens?
— Eu tinha alguém observando a região!
— Você mandou me vigiar?!
— Eu mandei proteger vocês!
— Sem minha permissão!
— Sem sua permissão!
— Você enlouqueceu!
— Talvez. Mas eles não levaram seu irmão!
Caio puxou o celular do bolso.
A tela já estava acesa.
Ele olhou e parou.
Helena tomou o aparelho da mão dele.
Havia uma foto.
Caio saindo da escola naquela manhã.
Mochila nas costas. Fones de ouvido. Sozinho na calçada.
Abaixo, uma frase:
Diga à sua irmã que família sempre volta para casa.
Caio passou a mão pelo rosto.
— Foi ele?
Helena fechou os dedos em torno do aparelho.
Dante abriu o guarda-chuva que um homem de terno, parado mais atrás, estendeu para ele.
Ela nem tinha percebido a presença do segurança.
— Para onde você quer nos levar? — Helena perguntou.
— Para um lugar seguro!
— E depois?
Dante olhou para Caio.
Depois para ela.
— Depois nós vamos conversar sobre um acordo!
Helena apertou o celular na mão.
— Que acordo?
— Um casamento!
Caio soltou uma risada nervosa.
— Desculpa… o quê?
Helena encarou Dante.
— Você perdeu a cabeça!
— É possível!
— Eu acabei de receber uma ameaça contra o meu irmão! Você aparece depois de cinco anos, fala da morte da minha mãe e acha que esse é o momento de propor casamento?!
— Eu não estou propondo por romance!
— Ainda bem! Porque nem no seu melhor delírio eu aceitaria casar com você por romance.
Dante continuou olhando para ela.
— Seis meses!
— Seis meses do quê?
— Casados!
— Por quê?
— Porque eu preciso impedir que Augusto Ferraz tome o controle do Grupo Valença!
Helena riu outra vez.
— E isso virou meu problema quando?
— Quando Hugo Duarte começou a trabalhar para ele!
— Meu pai trabalha para muita gente!
— Desta vez, ele trabalha contra você!
— Você quer me convencer de que casar com você vai resolver isso?
— Vai dar a nós dois tempo!
— “Nós dois” não existe!
— Vai existir no papel!
— Eu não sou uma assinatura que você coloca onde convém!
— Eu sei!
— Não parece!
Dante baixou os olhos para a mensagem no celular de Caio.
Quando voltou a encará-la, a chuva descia pelo rosto dele.
— Se você ficar sozinha, eles vão usar seu irmão para pressionar você!
— E por que eu deveria confiar em você?
Ele ficou em silêncio.
— Não deveria!
Helena estreitou os olhos.
— Essa é sua grande estratégia?
— Não. Minha estratégia é manter vocês vivos até eu descobrir o que sua mãe deixou!
— E, no caminho, eu viro sua esposa de mentira!
— Por seis meses!
— E depois?
— Depois você vai embora!
A resposta veio rápida.
Helena olhou para Caio.
O irmão estava encharcado, com os braços cruzados, tentando fingir que não tremia.
A foto continuava aberta na tela.
Caio sozinho na calçada.
Caio sendo observado.
Caio sendo escolhido.
Helena respirou fundo.
— Nós vamos conversar!
Dante abriu a porta traseira do carro.
— Vamos!
Ela colocou Caio no banco de trás primeiro.
Antes de entrar, olhou para Dante.
— Não confunde isso com confiança!
— Eu não cometeria esse erro!
Helena entrou no carro.
A porta se fechou.
Do lado de fora, a chuva apagou a cidade atrás do vidro escuro.
