O PRIMEIRO CHAMADO
Perséfone acordou antes do amanhecer.
Outra vez.
Permaneceu imóvel por alguns segundos, tentando entender por que seu coração batia tão depressa.
Havia sonhado.
Sabia disso.
Mas, quanto mais tentava se lembrar, mais o sonho escapava.
Restavam apenas fragmentos.
Escuridão.
Uma chama azul.
Uma voz distante.
E a estranha sensação de que alguém a observava.
Perséfone fechou os olhos e tentou recuperar alguma coisa.
Nada.
Abriu-os novamente.
— Foi só um sonho.
Mas não parecia.
Havia algo diferente naquela manhã.
Uma inquietação que ela não sabia explicar.
Como se alguma coisa tivesse começado enquanto dormia…
E ainda não tivesse terminado.
O Festival das Flores já havia tomado os jardins do templo de Deméter quando Perséfone chegou.
Música.
Crianças correndo.
Sacerdotes carregando oferendas.
Milhares de pétalas espalhadas pelo chão.
Era primavera.
Sua estação.
Seu mundo.
Normalmente, Perséfone adorava aquele dia.
Naquela manhã, porém, mal prestava atenção à celebração.
A sensação continuava.
Alguém a observava.
Perséfone virou-se.
Centenas de rostos passavam diante dela.
Nenhum parecia interessado demais.
Mesmo assim…
A sensação não desapareceu.
— Perséfone?
Ela se assustou.
Deméter estava ao seu lado.
— Mãe.
— Está tudo bem?
— Claro.
Deméter a observou por alguns segundos.
— Você parece cansada.
Perséfone hesitou.
— Tive um sonho estranho.
A expressão de Deméter mudou.
Foi rápido.
Mas Perséfone percebeu.
— Que sonho?
— Não consigo lembrar.
Deméter relaxou.
Ou tentou parecer relaxada.
— Então provavelmente não era importante.
Perséfone franziu a testa.
— Talvez.
Deméter tocou seu braço.
— Aproveite o festival, minha filha.
E se afastou.
Perséfone continuou olhando para a mãe.
Alguma coisa naquela reação a incomodara.
Mas não sabia exatamente o quê.
A cerimônia começou.
Perséfone tentou prestar atenção.
Não conseguiu.
A sensação havia voltado.
Mais intensa.
Seus olhos percorreram a multidão.
Foi então que encontrou uma anciã.
A mulher estava parada entre dezenas de pessoas.
Vestia um manto escuro.
Não sorria.
Não se movia.
Apenas olhava para Perséfone.
Diretamente.
Perséfone desviou os olhos por um instante.
Quando tornou a olhar…
A mulher estava mais perto.
Ela não a vira caminhar.
A anciã parou diante dela.
— Finalmente…
Perséfone franziu a testa.
— Perdão?
A mulher estendeu a mão.
— Posso?
Perséfone deveria ter recusado.
Não recusou.
Quando a anciã tocou seus dedos, seu rosto perdeu a cor.
Perséfone imediatamente tentou retirar a mão.
A mulher a segurou.
— Espere!
— O que aconteceu?
A anciã fechou os olhos.
Respirou profundamente.
Então murmurou:
— Já começou…
Perséfone sentiu um arrepio.
— O quê?
A mulher abriu os olhos.
— Quando chegar o momento…
Não confunda escuridão com maldade…
Perséfone ficou imóvel.
— Não estou entendendo.
— Ainda não precisa entender.
— Então por que está me dizendo isso?
A anciã soltou sua mão.
— Porque quando chegar a hora…
Você precisará escolher antes de compreender.
— Escolher o quê?
A mulher olhou por cima do ombro de Perséfone.
Seu rosto ficou tenso.
— Preciso ir!
— Espere!
A anciã recuou.
Perséfone tentou segui-la.
Duas pessoas atravessaram entre elas.
Foi apenas um instante.
A mulher desapareceu.
Perséfone procurou ao redor.
Nada.
— Quem era ela?
Uma sacerdotisa próxima olhou para Perséfone.
— Quem?
Perséfone apontou.
— A mulher que estava aqui.
A sacerdotisa olhou na direção indicada.
— Não vi ninguém.
Perséfone ficou em silêncio.
Aquilo não fazia sentido.
Muito abaixo do mundo dos vivos…
Hades observava um espelho de obsidiana.
Centenas de rostos passavam diante dele.
Nenhum importava.
Séculos haviam ensinado ao Rei do Submundo que quase tudo terminava da mesma maneira.
Homens desejavam poder.
Reis desejavam eternidade.
Amantes faziam promessas.
No fim…
Todos chegavam até ele.
Por isso, Hades havia aprendido a não esperar nada do mundo dos vivos.
Então…
Ela apareceu…
Perséfone…
Hades não se moveu.
A imagem durou poucos segundos.
Foi suficiente.
Ele aproximou-se do espelho.
Perséfone estava no Festival das Flores.
Hécate entrou no salão.
— Hades?
Ele não respondeu.
Ela acompanhou seu olhar até o espelho.
— Quem é ela?
Hades permaneceu em silêncio.
— Hades?
Ele finalmente respondeu:
— Perséfone.
Hécate olhou novamente para a jovem.
Depois para ele.
— A filha de Deméter?
— Sim.
— Por que está observando-a?
Hades desviou os olhos do espelho.
— Não estou.
Hécate quase sorriu.
— Claro.
Hades começou a se afastar.
Então a imagem mudou.
Perséfone virou o rosto.
Por um instante…
Pareceu olhar diretamente através do espelho.
Hades parou.
Hécate também.
— Ela pode ver você?
— Não.
— Tem certeza?
Hades não respondeu.
Perséfone continuava olhando na direção deles.
Até que a imagem desapareceu.
O espelho tornou-se negro novamente.
Hécate esperou.
— O que foi isso?
Hades permaneceu diante do espelho.
— Não sei.
E isso…
Era raro.
O festival terminou ao entardecer.
Perséfone afastou-se do templo procurando silêncio.
Entrou no jardim.
Precisava pensar.
Primeiro o sonho.
Depois Deméter.
Agora aquela mulher.
“Não confunda escuridão com maldade.”
Perséfone bufou.
— Isso esclareceu bastante.
Continuou caminhando.
Então parou.
Sobre uma pequena pedra havia uma flor.
Negra.
Completamente negra.
Perséfone aproximou-se.
Nunca vira uma flor daquela espécie.
Abaixou-se.
— De onde você veio?
Tocou uma das pétalas.
A flor se fechou imediatamente.
Perséfone retirou a mão.
— Certo…
A flor abriu novamente.
Havia alguma coisa embaixo dela.
Um objeto escuro.
Perséfone afastou cuidadosamente o caule.
Um pequeno medalhão estava sobre a pedra.
Obsidiana.
Frio.
Pesado.
No centro havia uma pedra violeta.
Perséfone olhou ao redor.
— Alguém perdeu isto?
Nenhuma resposta.
Ela pegou o medalhão.
No instante em que seus dedos tocaram a pedra violeta…
O jardim desapareceu.
Chamas azuis.
Perséfone abriu os olhos.
Estava em outro lugar.
Um enorme salão de pedra se estendia diante dela.
Colunas negras.
Sombras.
Silêncio.
— Onde estou?
Sua voz ecoou.
Nenhuma resposta.
Perséfone girou.
O coração acelerou.
Aquilo era impossível.
Um instante antes estava no jardim.
Agora…
Ouviu um som.
Passos.
Lentos.
Distantes.
Perséfone olhou para o fundo do salão.
Uma figura surgiu entre as chamas.
Um homem.
Alto.
Vestido de negro.
Ela não conseguia ver seu rosto.
— Quem é você?
O homem parou.
Silêncio.
Perséfone deveria sentir medo.
Mas não sentiu.
Sentiu…
Curiosidade.
E alguma coisa que não sabia nomear.
O homem deu mais um passo.
Perséfone permaneceu onde estava.
— Foi você que deixou o medalhão?
Ele não respondeu.
— Onde estamos?
Nada.
Perséfone perdeu a paciência.
— Você costuma responder perguntas?!
A figura pareceu quase sorrir.
Perséfone percebeu.
— Então consegue me ouvir.
Mais um passo.
Agora ela conseguia enxergar seus olhos.
Escuros.
Intensos.
Fixos nela.
Por algum motivo…
Seu coração bateu mais forte.
Não de medo.
Isso a irritou ainda mais.
— Quem é você?!
O homem abriu a boca.
Antes que pudesse responder…
Uma força invisível atravessou o salão.
As chamas azuis se apagaram.
Perséfone recuou.
— Espere!
Escuridão.
Ela voltou ao jardim de repente.
Cambaleou.
O medalhão ainda estava em sua mão.
Perséfone respirava rapidamente.
Olhou ao redor.
Tudo estava exatamente como antes.
As árvores.
As flores.
O templo ao longe.
Ela abriu a mão.
A pedra violeta permanecia ali.
— O que é você?!
Nenhuma resposta.
Perséfone virou o medalhão.
Havia uma inscrição no verso.
Pequena.
Antiga.
Ela conseguiu ler apenas duas palavras:
“Encontre-me.”
Perséfone sentiu um arrepio.
Olhou para a flor negra.
Ela estava murchando.
Em poucos segundos…
Virou cinzas.
No Submundo…
Hades levantou-se abruptamente.
Hécate olhou para ele.
— O que aconteceu?
Ele permaneceu imóvel.
As chamas azuis do salão haviam se agitado sem que ele as comandasse.
— Hades?
Ele olhou para o espelho.
A superfície negra começou a ondular.
Por apenas um instante…
Perséfone apareceu nele novamente.
Estava segurando alguma coisa.
Hades estreitou os olhos.
Então viu o medalhão.
Seu rosto mudou.
— Não!
Hécate aproximou-se.
— O quê?!
Hades tocou o espelho.
A imagem desapareceu.
— Onde ela encontrou isso?!
— Encontrou o quê?!
Hades não respondeu.
Pela primeira vez naquela noite…
Parecia preocupado.
No jardim…
Perséfone fechou a mão em torno do medalhão.
Deveria entregá-lo à mãe.
Era a decisão sensata.
Então lembrou da reação de Deméter naquela manhã.
Guardou o medalhão.
Por enquanto…
Não contaria a ninguém.
Quando começou a caminhar em direção ao templo, ouviu alguma coisa atrás dela.
Um galho quebrando.
Perséfone parou.
Virou-se.
Ninguém.
— Quem é?!
Silêncio…
Ela esperou…
Nada.
Continuou andando.
Não percebeu a sombra entre as árvores.
Nem os olhos que a acompanhavam.
Muito menos ouviu a voz baixa que atravessou o jardim depois que ela desapareceu.
— Então foi você…
Muito acima daquele jardim…
Um trovão cortou o céu completamente limpo.
Zeus interrompeu a conversa que mantinha no Olimpo.
Olhou para o horizonte.
Seu semblante endureceu.
Ares percebeu.
— O que aconteceu?
Zeus não respondeu.
Outro trovão.
Dessa vez mais forte.
Zeus fechou os olhos.
Sentiu novamente.
Uma presença.
Distante.
Impossível.
Quando abriu os olhos…
Havia preocupação em seu rosto.
— Encontre Deméter!
Ares franziu a testa.
— Por quê?
Zeus olhou para o céu.
— Agora!
— O que devo dizer a ela?
Zeus demorou alguns segundos para responder.
— Nada.
Ares ficou ainda mais confuso.
— Então por que devo encontrá-la?
Zeus virou-se lentamente.
— Porque primeiro preciso saber…
Ele parou.
Ao longe, outro trovão ecoou.
— …onde está Perséfone?!
Quer descobrir o que acontece a seguir?
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